Zé Perry
"Zé Perry no Campeche"
Ator Lucas Marcelo de Deus interpreta o Pequeno Príncipe
Fotos Divulgação
Histórias de Exupéry no Campeche
Documentário que ganha lançamento hoje na Ilha registra as viagens do escritor francês
Regis Mallmann

Inscrito na galeria das figuras mais importantes do século 20 por conta de sua destacada obra literária, que inclui, entre outros, os livros "O Pequeno Príncipe" e "Vôo Noturno", o francês Antoine de Saint- Exupéry foi também um dedicado piloto do correio aéreo da França entre os anos 20 e 40, atividade que acabou rendendo contato do escritor com a Ilha de Santa Catarina, onde por mais de uma vez pousou seu avião durante viagens de trabalho entre Paris e Buenos Aires. Essas passagens por Florianópolis, mais precisamente pela praia do Campeche - onde funcionava um campo de pouso mantido pelos franceses - é tema do documentário "Zé Perry no Campeche", que tem lançamento hoje, na sala multimídia do Museu da Imagem e do Som (MIS).

Filme
Chico Caprário no papel do escritor
Sem comprovação documental do contato de Exupéry com Florianópolis - a não ser "provas orais" passadas através de gerações das famílias de pescadores que viveram naquele tempo e de alguma referência do próprio escritor à cidade catarinense no livro "Vôo Noturno" - os alunos da disciplina documentário 1, do curso de cinema e vídeo da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), usaram do recurso da ficção alinhavada ao documentário para levar à tela em 18 minutos sua interpretação dessa fascinante história. Orientado pelo professor e cineasta Zeca Pires, o grupo de estudantes foi atrás das evidências e gravou imagens de moradores contando sua versão dos fatos, misturando personagens fictícios como o Pequeno Príncipe e o próprio escritor.
O tema do filme é um assunto que vem rendendo muitas pesquisas ao longo dos últimos anos, muitas delas reforçadas pelas comemorações do centenário do autor - ocorridas em junho do ano passado. Sua passsagem por Florianópolis - história que, passados 70 anos, ainda mexe com o imaginário ilhéu -, mistura interrogações e certezas. "Será mesmo que ele passou por aqui?" é a pergunta que muita gente se faz, apesar de a maioria da pessoas não ter dúvida sobre o fato. Entre os depoimentos que ilustram o filme - como os da professora e tradutora Carmen Lúcia Cruz Lima Gerlach e João Moritz, outro que diz ter conhecido o escritor - o de maior vigor informativo é prestado por Getúlio Manoel Inácio, filho de Manoel Rafael Inácio, o Deca, pescador do Campeche que teria sido a pessoa que teve o contato mais íntimo com Exupéry.
Getúlio, ele próprio um pesquisador do tema, fala de seu trabalho e, principalmente, daquilo que seu pai, morto aos 83 anos em 1986, lhe contou ao longo da vida. Assim, costurando informações históricas - oficiais ou não -, entrevistas, conversas com algumas crianças da localidade e as cenas em que aparecem os atores Chico Caprário (Saint- Exupéry) e Lucas Marcelo de Deus (Pequeno Príncipe), os idealizadores do documentário avivam mais uma vez essa bela história, misto de foclore e realidade, bem ao estilo de uma tradição que move o espírito do florianopolitano desde os primórdios da colonização açoriana.
O QUÊ: Lançamento do documentário "ZÉ PERRY NO CAMPECHE", dos alunos do curso de cinema e vídeo da Unisul, sob orientação de Zeca Pires. QUANDO: Hoje, às 19h30. ONDE: Sala multimídia do Museu da Imagem e do Som (MIS), anexo ao Centro Integrado de Cultura (CIC), av. Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, tel.: (0xx48) 333-2166. QUANTO: Gratuito.
Cartas revelam drama pessoal
Florianópolis - Paralelo à primeira exibição pública do documentário "Zé Perry no Campeche", acontece hoje, às 19 horas, no Café Matisse, também no Centro Integrado de Cultura (CIC), o lançamento do livro "Cartas de Juventude" (EdUFSC, 80 páginas, R$ 14,00). Traduzida pelas professoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Carmem Lúcia Cruz Lima Gerlach e Juliane Bürger, a correspondência apresenta ao leitor os textos que o escritor francês enviava de várias partes do mundo para uma moça, amiga de infância, chamada Rinette, cujo nome verdadeiro era Renée de Saussine .
A primeira edição de "Lettres de Jeunesse" é de 1953, pela francessa Gallimard, quase dez anos depois do desaparecimento do autor de "O Pequeno Príncipe". Agora, com essa tradução para o português, Carmem Lúcia e Juliane procuram resgatar essa faceta pouco conhecida do escritor, um aspecto de sua personalidade que demonstra o espírito aventureiro e solitário que o movia .
Cada uma das 25 cartas resgatadas no livro foi escrita em alguma parte do mundo por onde Exupéry passou por conta de sua atividade aérea. Elas exprimem o pensamento do escritor sobre diversos temas, que vão de Nietzsche e Pirandello, ou apenas relatam a beleza ou o clima do lugar de onde escreve. Em comum elas têm o fato de estarem sempre pautadas por uma espécie de amor platônico que ele sustentava por Rinette. Isso é percebido em cada linha, em fraes pautadas pela frustração de não obter retorno às investidas enviadas para a amada.
Acostumado ao universo ficcional das obras de Antoine de Saint-Exupéry, o leitor vai encontrar nesse "Cartas da Juventude" - todas escritas entre 1923 e 31 - uma outra pessoa, um homem de carne e osso, com seus dramas pessoais, dúvidas e frágilidades, um homem apaixonado. Não que essa paixão apareça declarada, mas encoberta na sombra do fato de ele insistir em continuar com as cartas mesmo quando Rinette, não se sabe por qual motivo, deixasse de respondê-las. O mérito dessa obra é trazer à luz de nosso tempo o tempo do escritor, quando cartas ainda eram a melhor forma de comunicação à distância.
O QUÊ: Lançamento do livro "Cartas de Juventude", de Antoine de Saint-Exupéry, com tradução de Carmem Lúcia Cruz Lima Gerlach e Juliane Bürger, Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), 80 páginas. QUANDO: hoje, às 19h. ONDE: Café Matisse, anexo ao Centro Integrado de Cultura (CIC), av. Irineu Bornhausen, 5.600, tel.: (0xx48) 333-2166. QUANTO: R$ 14,00
Raio-X
Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, França, no dia 29 de junho de 1900 e morreu em 31 de julho de 1944, quando seu avião foi abatido pelos alemães nas imediações da Córsega. Recentemente foram localizados os destroços da pequena aeronave que ele usava para suas viagens para o correio aéreo francês, mas o corpo do escritor-aviador nunca foi encontrado. Entre seus romances destacam-se "Vôo Noturno", ganhador do prêmio Femina de 1931, no qual, no capítulo nove, cita a escala em Florianópolis, e "O Pequeno Príncipe", sua obra mais conhecida e até hoje um dos livros mais lidos no mundo inteiro.
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